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Carta aos Acionistasssss
 
Em mais de um sentido, 2004 foi um ano muito especial: para a economia mundial, para o Brasil e para o Unibanco. Esta Carta procura situar em perspectiva os eventos recentes, mostrando aos acionistas por que o Unibanco, que acaba de completar seus primeiros 80 anos, olha com serena confiança não só para 2005 como também para muito adiante. Com a segurança de uma instituição financeira que sempre soube enfrentar desafios, aproveitar oportunidades e consolidar-se como uma das mais importantes do país.

A economia brasileira cresceu mais de 5% em termos reais em 2004, o maior crescimento anual desde os 5,9% de 1994, com taxa de inflação de 7,6%, dentro da meta de 5,5% ± 2,5 p.p. e inferior à média do período 1995-2003, de 9,2%. A expansão das operações de crédito com recursos livres foi superior a 21% em termos nominais, chegando a 29% para pessoa física e 16,3% para jurídica. A taxa de desemprego ao final do ano chegou a 9,6%, a mais baixa desde que a nova série foi iniciada, em outubro de 2001. Isso reflete o forte impulso da economia, a melhoria das expectativas e um maior grau de confiança de consumidores e investidores. A taxa de câmbio terminou o ano em R$ 2,65 por dólar, contra R$ 2,89 ao final de 2003. E a dívida total do setor público consolidado declinou para menos de 52% do PIB ao final de dezembro, contra 57% em fins de 2003.

O bom desempenho de 2004 pode ser atribuído ao efeito combinado de três fatores principais, que vale ter em mente porque são importantes na avaliação das perspectivas para o Brasil e para o Unibanco em 2005 e 2006. Afinal, o filme é mais relevante que a fotografia.

Em primeiro lugar, vale lembrar que 2004 foi um ano extraordinário do ponto de vista da economia internacional. Como em muito poucos anos das últimas décadas, o produto mundial cresceu cerca de 5% em termos reais, e com especial força no que o FMI considera as duas maiores economias do mundo de hoje: EUA (4,4%) e China (9,5%). A forte demanda significou uma expressiva expansão do comércio mundial, tanto em volume quanto em preços - especialmente de commodities -, além do investimento direto relacionado ao comércio internacional. As taxas de juros norte-americanas estiveram em 2004 e 2003 nos níveis mais baixos desde o final dos anos 50, início dos 60. Como conseqüência, a ampla liquidez internacional reduziu a aversão a risco e permitiu significativa expansão dos fluxos de capitais para empresas e governos, inclusive de vários países em desenvolvimento.

Em segundo lugar, cabe fazer justiça à política econômica do governo, em particular à postura do Ministro Antonio Palocci e sua equipe ao longo dos dois primeiros anos do mandato que o atual Presidente da República recebeu das urnas. A reafirmação do compromisso com a responsabilidade fiscal, com a preservação da inflação sob controle e com o regime de taxa de câmbio flutuante foi absolutamente essencial para a gradual redução das incertezas que marcaram boa parte do ano eleitoral de 2002 e para que o processo de formação de expectativas quanto ao futuro afetasse positivamente o ânimo empresarial e a confiança dos consumidores.

Em terceiro lugar, talvez menos visíveis, mas não menos importantes, estão os processos de mudança institucional e transformação estrutural que vêm caracterizando a evolução da economia brasileira há mais de uma década. Como a derrota da hiperinflação, de 1.000% ao ano, em média, no período 1988-1994. Como a maior abertura relativa da economia, estimulando, em um primeiro momento, as importações de máquinas, equipamentos, peças e componentes e insumos produtivos, aumentando a eficiência da economia e sua competitividade internacional. Como a Lei da Responsabilidade Fiscal, a negociação das dívidas com estados e municípios. Como o saneamento do sistema financeiro pós-hiperinflação. Como a abertura ao investimento privado nas áreas em que o setor público não teria condições de realizar os investimentos necessários ao crescimento do país.

Em resumo, o desempenho da economia brasileira em 2004 foi o resultado de uma combinação favorável de fatores externos (comerciais e financeiros), de uma condução responsável da política macroeconômica pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de avanços realizados pela economia e pela sociedade brasileiras na vigência de administrações anteriores.

O Unibanco, assim como os bancos brasileiros que se prepararam para estes novos tempos, teve bom desempenho em 2004. Seus ativos totais chegaram a R$ 79,35 bilhões, seu patrimônio a R$ 8,1 bilhões, suas operações de crédito a R$ 31,8 bilhões, seus depósitos totais a R$ 33,5 bilhões. O resultado líquido alcançou R$ 1.283 milhões, com aumento de 22% sobre o resultado de 2003. Isso significa um retorno anualizado sobre o patrimônio líquido médio de 16,8% no ano de 2004 (mas de 20,1% no último trimestre do ano, indicando clara tendência favorável).

A evolução desses resultados positivos ao longo do ano não passou desapercebida pelo mercado. Em 1º- de setembro de 2004, a Bolsa de Valores de São Paulo anunciou a nova composição das carteiras do IBrX-50, índice composto pelas 50 ações com maior índice de negociabilidade. A Unit (UBBR11) passou a integrar o IBrX-50 com peso de 2,724% naquela data, o que representava a 11ª posição na carteira do índice. Evidenciando que a entrada no IBrX-50 constituiu um sólido passo para aumentar a liquidez do papel no mercado brasileiro, na nova carteira teórica para o quadrimestre de janeiro a abril de 2005, o peso da Unit aumentou para 2,926%.

Passo adicional extremamente importante no sentido de conferir maior liquidez às Units foi o anúncio de fato relevante, em 3 de dezembro de 2004, sobre a intenção de realização de oferta pública secundária de aproximadamente 46 milhões de Units de propriedade do Commerzbank e do BNL, representando 6,6% do Unibanco.

A operação - concluída já no início de 2005 - foi um extraordinário sucesso. A demanda total por Units superou quase cinco vezes a oferta. Cerca de uma centena de investidores institucionais incluíram ordem de compra de Units no livro de ofertas. A demanda no varejo brasileiro envolveu 1.653 investidores pessoas físicas. A operação movimentou mais de R$ 718 milhões, representando um aumento significativo do float das Units.

A excelente receptividade à oferta pública, tanto de investidores brasileiros como estrangeiros, é evidência da avaliação positiva dos mercados sobre o processo de mudança ora em curso no Unibanco. Como escreveu o Presidente Executivo do banco no dia 4 de fevereiro de 2005: "Investidores dentre os mais sofisticados no Brasil e no mundo colocaram pedidos e compraram ações do Unibanco. Muitos deles adquiriram Units pela primeira vez na história. Ultrapassamos, com isso, a barreira de só termos nossas ações compradas por fundos dedicados, com foco em mercados emergentes. Hoje fazemos parte do portfolio de grandes investidores, que negociam ações das principais corporações do mundo".

O Unibanco segue explorando todas as potencialidades do modelo de banco universal, no qual se operam as sinergias e o cross-selling das áreas Varejo, Atacado, Seguros e Previdência e Gestão de Patrimônios. As oportunidades de sinergia são significativas, dada a importância relativa do Unibanco em cada uma dessas quatro grandes áreas de negócios.

No Varejo, o Unibanco, com suas subsidiárias integrais e joint-ventures, dispõe de uma base de mais de 18 milhões de clientes pessoas físicas, das quais cerca de 450.000 representados por pequenas e médias empresas e uma carteira de crédito de quase R$ 18 bilhões. No Atacado atende a cerca de 2.000 grandes empresas, oferecendo amplo leque de produtos, projetos e serviços, com carteira de crédito de R$ 14 bilhões.

Na área Seguros e Previdência, na qual tem joint-venture com o AIG, o banco detém 8% de participação no mercado total, é líder em risco corporativo e pioneiro no desenvolvimento de novos produtos. Em Gestão de Patrimônios, é responsável pela gestão de R$ 33 bilhões de recursos de terceiros (4,8% do mercado total) e detém a segunda posição em private banking, com 9,3% do total de ativos sob gerenciamento.

O Unibanco foi pioneiro e é um dos líderes no Brasil em operações de financiamento do consumo, através de suas subsidiárias e parcerias. Essa estratégia vencedora, há muito estabelecida, teve continuidade com a compra do HiperCard pelo valor total de R$ 630 milhões, anunciada em 1º- de março de 2004; o acordo operacional com o Bompreço S.A. (Wal-Mart); a parceria com o grupo Sonae para a criação de uma financeira; e a reestruturação societária do grupo Credicard, concluída em 29 de dezembro de 2004.

Essa última foi uma operação de grandes proporções. Através dela o Unibanco vendeu a sua participação de um terço do capital social do Credicard e da Orbitall para seus dois outros sócios originais por quase R$ 1,7 bilhão (17 vezes o lucro, 10,4 vezes o patrimônio líquido). A Redecard S.A, empresa que atua na captura e na transmissão de transações com cartões de crédito e débito, e portanto do relacionamento com lojistas, não foi objeto da transação. O resultado auferido foi totalmente utilizado para reforçar o balanço do Unibanco (amortização do saldo de ágios, reforço de provisão de créditos livres, despesas com reestruturação e contingências fiscais), aumentando sua tradicional solidez e afetando positivamente a geração de lucro por ação.

A presença do Unibanco no mercado de cartões de crédito continua firme e sólida: 8 milhões de cartões através de subsidiárias 100% controladas, além de 9,5 milhões de cartões private label e auto-suficiência no processamento de todos.

O foco estratégico do Unibanco na área de negócios com maior margem e mais rápido crescimento o levou a um aumento de sua base de clientes de cerca de cinco vezes em apenas cinco anos (de 3,7 milhões de pessoas em 1999 para as 18,2 milhões atuais), incluindo-se, além do banco, suas subsidiárias (Fininvest, Unicard e HiperCard) e suas joint-ventures (PontoCred, LuizaCred, Redecard e Sonae). Além disso, o Unibanco possui várias alianças estratégicas (dentre elas as estabelecidas com Wal-Mart, Ipiranga e Martins). Essa rede de financiamento tem demonstrado enorme potencial de incrementar vendas cruzadas e aumentar a presença do Conglomerado num mercado em que há amplo espaço no Brasil, dado que o crédito como percentual do PIB é da ordem de 27% atualmente - contra 67% no Chile, 80% no Canadá, mais de 100% na Malásia e na Coréia e mais de 120% na Alemanha e nos Estados Unidos. O Unibanco está extraordinariamente bem posicionado para explorar as enormes possibilidades de crescimento do volume de crédito no país.

Foi exatamente pensando no seu melhor posicionamento e na preparação para os desafios desse futuro que o Unibanco passou por um expressivo processo de mudança interna no ano de seu octogésimo aniversário. Pedro Moreira Salles assumiu a função de Presidente Executivo do banco no contexto de uma ampla reestruturação, que envolveu mudanças não apenas de pessoas nem tampouco restritas às quatro grandes áreas de negócios. Adicionalmente, foram reestruturadas, criadas ou consolidadas novas áreas no banco: Risco e Pesquisa Macro; Jurídico, Auditoria, Compliance e Relações Governamentais; Planejamento, Controle e Operações; e Pessoas e Comunicação.

O Conselho de Administração do Unibanco passou a contar, em 2004, com Armínio Fraga e Joaquim Francisco de Castro Neto. Ambos trazem ao Conselho suas respectivas e extraordinárias experiências profissionais, reconhecidas competências técnicas e dedicação compartilhada ao projeto de excelência que anima o Unibanco. Pedro Moreira Salles continua no Conselho, na posição de Vice-Presidente, antes ocupada pelo signatário desta carta, que passou a Presidente do Conselho, o quarto da história do Unibanco.

Com base nessas mudanças, o Unibanco definiu seu novo desafio-síntese, meta a alcançar em 2006: taxa de retorno de 20%, proveniente do resultado de R$ 2 bilhões a ser alcançado naquele ano, sobre patrimônio médio de R$ 10 bilhões. Um grande desafio, um claro objetivo e uma equipe de colaboradores totalmente empenhada em alcançá-lo.

A Diretoria Executiva e o Conselho de Administração do Unibanco estão fortemente comprometidos com as ações e as posturas necessárias à obtenção desse resultado. Desde o foco na redução de custos, na execução do orçamento, nos índices de eficiência, nas auditorias internas e na preocupação constante com a satisfação dos clientes, com a dedicação dos seus colaboradores e com a qualidade das relações com os investidores. Em 2004 foi criado o Comitê de Auditoria, presidido por um membro do Conselho de Administração e integrado por dois membros externos, com a finalidade de acompanhar os trabalhos do auditor independente e da auditoria interna e zelar pela qualidade dos controles internos e das demonstrações financeiras.

Sabem, Diretoria e Conselho, que o Unibanco tem a obrigação de estar sempre se situando no seu entorno competitivo, avaliando seu desempenho em relação ao de seus melhores competidores, atento às melhores práticas de mercado e buscando excelência em suas análises dos vários tipos de risco envolvidos na atividade bancária. Sabem também, Diretoria e Conselho, da importância com que as atividades do banco são afetadas pelas perspectivas de evolução da economia brasileira, sempre influenciada pelo contexto mais amplo da economia internacional.

Esta última deverá em 2005 ter razoável desempenho, embora não tão favorável quanto o de 2004, um ano extraordinário do ponto de vista de crescimento global, cujo momentum será parcialmente carregado para 2005. Os inevitáveis aumentos das taxas de juros norte-americanas deverão levar a menor propensão ao risco. A volatilidade das taxas de câmbio entre as principais moedas não deve diminuir, dada a magnitude do desequilíbrio do balanço de pagamentos dos EUA, seu elevado déficit fiscal e a mais baixa taxa de poupança privada de sua história. Continuam as incertezas sobre a sustentação do alto crescimento da Ásia, sobre o relativamente baixo crescimento da Europa, bem como sobre o preço internacional do petróleo, dada a instabilidade política do Oriente Médio.

Mas a economia brasileira e seu sistema financeiro estão hoje melhor posicionados para enfrentar turbulências e volatilidades, pelas razões anteriormente apontadas, que vêm gradualmente reduzindo vulnerabilidades da economia, reais ou percebidas como tal. O Governo atual vem, responsavelmente, construindo sobre avanços realizados pela sociedade brasileira. É fundamental que esses avanços tenham continuidade. E há razões para acreditar que isso possa acontecer, à luz da experiência recente, o que nos permite olhar com prudente confiança para 2005 - e adiante. Confiança no futuro do país. E no futuro do Unibanco.

Cordialmente,


PEDRO SAMPAIO MALAN
Presidente do Conselho de Administração

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