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A lembrança da postura assumida no passado a respeito de questões
econômicas, certamente não tranqüilizava aqueles que
acreditam que o crescimento sustentável depende essencialmente
da construção da credibilidade e da persistente busca da
confiança. Embora algumas das idéias mais radicais de Lula
dissiparam-se ao longo de suas três candidaturas à Presidência,
a campanha de 2002 ainda levava consigo uma agenda populista/nacionalista.
As expectativas do mercado claramente refletiram essa conjuntura.
Assim, em 1o de janeiro o risco Brasil estava 1.379 pontos-base acima
dos títulos do Tesouro norte-americano, a taxa de câmbio
fechara em R$ 3,53/US$, o C-Bond encerrara cotado a 66,6% do valor de
face, a inflação anualizada atingira 29% – e o mercado
cotava o Unibanco em apenas 80% do seu valor patrimonial. O fluxo de capital
externo para o país e suas empresas de primeira linha havia simplesmente
desaparecido. Um cenário bastante difícil.
Como um ano pode fazer diferença... Enquanto escrevo esta carta, em janeiro
de 2004, o país promove sua reviravolta. O risco Brasil está caindo e
atingiu 430 pontos-base, US$ 1,00 compra agora R$ 2,81, o C-Bond está
sendo negociado pela primeira vez acima do par, a inflação anualizada
encontra-se abaixo de 6% – e, tenho a satisfação de declarar, o valor
de mercado do Unibanco subiu mais de 135% em dólares. O Brasil tem recebido
um fluxo muito grande de capital externo a custos extremamente baixos
em termos históricos. Para além da óbvia ajuda de um cenário internacional
favorável, é natural nos questionarmos sobre o que pode ter acontecido
no país nesses últimos doze meses. Para aqueles que, como nós, enfrentaram
essa forte volatilidade, um fator claramente se destaca: credibilidade.
O presidente Lula e seus assessores econômicos, particularmente o ministro
da Fazenda, Antonio Palocci, venceram a batalha das expectativas. Trabalhando
com bom senso, diária e persistentemente, eles explicaram seus objetivos
– poucos, mas muito significativos – e empenharam-se em atingi-los. Antes
de mais nada, era preciso conter a inflação: o indicativo inicial das
intenções do governo foi o anúncio, em fevereiro, de uma meta mais elevada
de superávit primário, perseguida vigorosamente ao longo do ano. Durante
o primeiro semestre, observadores das mais variadas colorações políticas
assistiram, surpresos, a dois sucessivos aumentos da taxa Selic, promovidos
pelo Banco Central, num governo do Partido dos Trabalhadores. Paralelamente,
foi retomada uma agenda de modernização: em meados do ano, o Executivo
enviou ao Congresso um projeto ambicioso de reforma previdenciária – aprovado
no final do ano com modificações mínimas; uma lei de falências está sendo
examinada pelo Legislativo – prometendo promover maior proteção aos credores,
estimular o crédito e permitir a redução dos spreads bancários; uma reforma
tributária também foi encaminhada ao Congresso, embora neste caso a proposta
tenha ficado aquém das expectativas dos agentes econômicos. Correndo o
risco de simplificar em excesso a conjuntura, é possível dizer que essa
determinação na abordagem do quebracabeça econômico em que estávamos mergulhados
foi a razão pela qual o Brasil pôde reverter seu curso, reconstruindo
a necessária credibilidade na força do país.
Naturalmente, a administração da crise teve custos. No final do ano,
estimava-se que o PIB brasileiro havia estagnado em 2003. O desemprego
cresceu, embora a economia tenha conseguido criar quase 1 milhão de novas
vagas. A informalidade também aumentou, com todos os seus efeitos insidiosos
sobre os níveis de produtividade. As grandes flutuações do câmbio impactaram
os balanços das empresas – inclusive o do Unibanco – e o setor exportador
passou por uma redução significativa do seu fluxo de caixa em moeda local.
Mesmo assim, este foi um preço baixo para se resgatar o país da beira
do abismo.
O desempenho operacional do Unibanco melhorou substancialmente em 2003.
Todas as nossas unidades de negócios registraram um crescimento significativo
do resultado antes do imposto de renda. No Varejo, o lucro líquido gerencial
de nossas agências aumentou cerca de 36%. Nossas empresas de consumo consolidaram
seu processo de reestruturação apresentando um crescimento superior a
280% no lucro. A inadimplência foi controlada rigorosamente. No Atacado,
apesar da estagnação dos volumes e da deterioração do cenário de crédito,
o desempenho dos negócios também evoluiu positivamente. O Unibanco liderou
algumas das mais significativas transações do mercado de capitais no Brasil
durante o ano, entre elas a reestruturação das Indústrias Klabin, a venda
de várias subsidiárias da Rede Globo e as ofertas de ações da VCP e da
Suzano. Enfrentamos desafios na área de crédito ao longo do ano, particularmente
em alguns setores-chave. Mas a necessidade de elevar os níveis de provisões
foi mais do que compensada pela atuação da equipe do Banco de Atacado,
que teve um papel fundamental na reestruturação de vários balanços corporativos,
gerando uma receita de serviços substancial e um relacionamento ainda
mais sólido com nossos clientes de primeira linha. Em um ambiente adverso,
nosso Banco de Atacado demonstrou sua agilidade e audácia, e construiu
bases para novas oportunidades de negócios. Mantendo sua notável trajetória,
a Unibanco AIG Seguros e Previdência aumentou sua participação de mercado
em 2003. Fechamos o ano com uma participação de 7,2% no mercado de seguros,
liderando os segmentos de garantia estendida, risco petroquímico, incêndio,
responsabilidade civil e previdência corporativa. Em termos consolidados,
os prêmios emitidos cresceram 37%. Finalmente, nosso pilar de Gestão de
Patrimônios, além de registrar um crescimento de 18,8% nos resultados,
incrementou significativamente o volume de ativos sob sua gestão e administração.
Esta melhora na performance de todas as áreas de negócio resultou no crescimento
de 72,4% do nosso resultado antes de impostos, que saltou de R$ 1.112
milhões para R$ 1.917 milhões. No entanto, conforme detalhado neste relatório,
nosso demonstrativo de resultados foi prejudicado por uma despesa com
impostos mais alta, conseqüência da alta tributação da receita do hedge
de nossa posição comprada em dólares. É essa a razão pela qual, mesmo
com o substancial aumento do lucro antes do imposto de renda, nosso lucro
líquido teve um aumento de apenas 4,2%, muito aquém de nosso objetivo
de crescimento do lucro por ação de 15%.
Em 2003 o Unibanco manteve sua trajetória de crescimento orgânico, mas
sem deixar de exercer, ao mesmo tempo, várias oportunidades de aquisição.
O pilar de Gestão de Patrimônios adquiriu a carteira de ativos sob gestão
do Banco Pictet Modal. A Unibanco AIG Seguros e Previdência comprou as
operações de previdência da Cigna e o negócio de seguros da Fiat (Phenix).
Para complementar nosso Banco de Varejo, adquirimos a Creditec, companhia
de crédito ao consumidor que contribuirá para expandir em 57,6% a rede
de distribuição da Fininvest. Com fusões e aquisições de grande impacto
tornando-se cada vez mais raras, acredito que parcerias e aquisições de
menor porte, estrategicamente focadas, serão importantes fontes de crescimento.
Essa estratégia deverá marcar nossa atuação também em 2004. Cada aquisição
ou parceria realizada deverá contribuir para o fortalecimento do leque
de negócios do Unibanco, aumentando nossa capacidade de aproveitar o ambiente
econômico favorável que parece estar se desenhando no país.
O conselho de administração do Unibanco foi reestruturado em 2003, quando,
pela primeira vez em 20 anos, foram recrutados conselheiros externos,
sem funções executivas.Em maio, Pedro Sampaio Malan foi eleito vice-presidente
do conselho, trazendo com ele o respeito e a experiência de mais de três
décadas de serviço público, onde estão incluídos oito anos como ministro
da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso. Pedro Bodin de Moraes
também foi eleito membro do conselho nesse período. Com uma também significativa
passagem pelo setor público, trabalhando como diretor financeiro do BNDES
e diretor de política monetária do Banco Central do Brasil, Pedro Bodin
agrega uma bem sucedida incursão pelo setor privado, ao ter administrado
por quase 10 anos um dos principais bancos de investimentos do país. É
um privilégio e um grande orgulho liderar um grupo de pessoas tão talentosas
e versáteis, e testemunhar a imensa contribuição que um conselho diversificado
mas perfeitamente integrado e comprometido com o futuro da instituição
pode trazer à nossa companhia.
O ano de 2003 também foi marcado pela saída de Tomaz Zinner do Conselho
de Administração. Sua contribuição de 38 anos prestada ao desenvolvimento
e ao crescimento do Unibanco, cinco desses anos como presidente executivo
e seis como vice-presidente do conselho, permanecerá marcada em nossa
memória. Um grande amigo que muito me ensinou e a quem estendo, em nome
do conselho e de toda a comunidade Unibanco, meu apreço e gratidão mais
profundos pelo seu comprometimento e dedicação a este Grupo.
Olhando adiante, com a economia caminhando para juros mais baixos, maior
crescimento e, espera-se, um ambiente “normalizado”, novos desafios deverão
surgir para o sistema bancário brasileiro. Conhecendo o nosso país, é
de todo prudente escrever “normalizado” entre aspas, já que sabemos quão
volátil é o Brasil e quão frágeis ainda são as suas instituições. Mas
acredito que, apesar de todos os avanços e recuos que marcaram a nossa
história recente, a direção está dada e o país avança. Essa tendência
perdurando, como todos nós, brasileiros, esperamos, as instituições financeiras
passarão pela última etapa de um processo de transição que se iniciou
há 20 anos. De um resultado majoritariamente dependente de receitas advindas
de inflação, característica dos anos 80, passando por um período que vai
de meados dos anos 90 até hoje de balanços reestruturados baseados em
receitas de serviço, baixos volumes de crédito e spreads extremamente
altos, para o desafio que se abre de trabalhar com spreads menores e volumes
de crédito maiores. Tenho plena confiança de que o Unibanco está totalmente
preparado para enfrentar mais esse desafio. Durante os últimos anos, investimos
substancialmente na expansão de nossa base de clientes, desenvolvemos
uma poderosa rede de distribuição em todo o país e entramos em vários
segmentos financeiros promissores, cuidadosamente selecionados. Dada a
ampla oferta de produtos a uma base leal e crescente de clientes individuais
e corporativos e o posicionamento diferenciado do Unibanco no segmento
de crédito ao consumidor, acredito que estamos numa posição privilegiada
para nos beneficiarmos de uma retomada da economia brasileira. Naturalmente,
como os spreads tendem a diminuir antes de uma expansão prudente e sensata
do volume de ativos, as margens poderão ser impactadas. Um preço pequeno,
se formos recompensados com uma nação forte, produtiva e com um sólido
sistema financeiro detentor de uma eficiente oferta de produtos e serviços.
O Unibanco está pronto e ansioso para contribuir para o desenvolvimento
desse futuro promissor.
Cordialmente,
Pedro Moreira Salles
Presidente do Conselho de Administração
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