Mensagem do Presidente
O Grupo Financeiro Unibanco
Comentário dos Resultados
O Unibanco
Sustentabilidade
Unibanco Holdings
Demonstrações Financeiras
Site de Relações com Investidores
 
 
  
   
     



Em 1o de janeiro de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se o 20o presidente do Brasil, o quinto do período democrático pós-1984. Pela primeira vez na história brasileira, um homem do povo, com pouca educação formal, que por mais de 30 anos havia sido um ardente defensor do movimento trabalhista, fortemente ligado à Esquerda, recebeu o mais importante cargo do país. A transição de governo foi tão tranqüila e organizada que possivelmente servirá de exemplo para futuras transmissões de poder público. Mesmo assim, o mercado permanecia muito nervoso já que, para ele, como certamente para a maioria dos brasileiros, o novo presidente ainda era uma incógnita.


A lembrança da postura assumida no passado a respeito de questões econômicas, certamente não tranqüilizava aqueles que acreditam que o crescimento sustentável depende essencialmente da construção da credibilidade e da persistente busca da confiança. Embora algumas das idéias mais radicais de Lula dissiparam-se ao longo de suas três candidaturas à Presidência, a campanha de 2002 ainda levava consigo uma agenda populista/nacionalista. As expectativas do mercado claramente refletiram essa conjuntura.

Assim, em 1o de janeiro o risco Brasil estava 1.379 pontos-base acima dos títulos do Tesouro norte-americano, a taxa de câmbio fechara em R$ 3,53/US$, o C-Bond encerrara cotado a 66,6% do valor de face, a inflação anualizada atingira 29% – e o mercado cotava o Unibanco em apenas 80% do seu valor patrimonial. O fluxo de capital externo para o país e suas empresas de primeira linha havia simplesmente desaparecido. Um cenário bastante difícil.

Como um ano pode fazer diferença... Enquanto escrevo esta carta, em janeiro de 2004, o país promove sua reviravolta. O risco Brasil está caindo e atingiu 430 pontos-base, US$ 1,00 compra agora R$ 2,81, o C-Bond está sendo negociado pela primeira vez acima do par, a inflação anualizada encontra-se abaixo de 6% – e, tenho a satisfação de declarar, o valor de mercado do Unibanco subiu mais de 135% em dólares. O Brasil tem recebido um fluxo muito grande de capital externo a custos extremamente baixos em termos históricos. Para além da óbvia ajuda de um cenário internacional favorável, é natural nos questionarmos sobre o que pode ter acontecido no país nesses últimos doze meses. Para aqueles que, como nós, enfrentaram essa forte volatilidade, um fator claramente se destaca: credibilidade. O presidente Lula e seus assessores econômicos, particularmente o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, venceram a batalha das expectativas. Trabalhando com bom senso, diária e persistentemente, eles explicaram seus objetivos – poucos, mas muito significativos – e empenharam-se em atingi-los. Antes de mais nada, era preciso conter a inflação: o indicativo inicial das intenções do governo foi o anúncio, em fevereiro, de uma meta mais elevada de superávit primário, perseguida vigorosamente ao longo do ano. Durante o primeiro semestre, observadores das mais variadas colorações políticas assistiram, surpresos, a dois sucessivos aumentos da taxa Selic, promovidos pelo Banco Central, num governo do Partido dos Trabalhadores. Paralelamente, foi retomada uma agenda de modernização: em meados do ano, o Executivo enviou ao Congresso um projeto ambicioso de reforma previdenciária – aprovado no final do ano com modificações mínimas; uma lei de falências está sendo examinada pelo Legislativo – prometendo promover maior proteção aos credores, estimular o crédito e permitir a redução dos spreads bancários; uma reforma tributária também foi encaminhada ao Congresso, embora neste caso a proposta tenha ficado aquém das expectativas dos agentes econômicos. Correndo o risco de simplificar em excesso a conjuntura, é possível dizer que essa determinação na abordagem do quebracabeça econômico em que estávamos mergulhados foi a razão pela qual o Brasil pôde reverter seu curso, reconstruindo a necessária credibilidade na força do país.

Naturalmente, a administração da crise teve custos. No final do ano, estimava-se que o PIB brasileiro havia estagnado em 2003. O desemprego cresceu, embora a economia tenha conseguido criar quase 1 milhão de novas vagas. A informalidade também aumentou, com todos os seus efeitos insidiosos sobre os níveis de produtividade. As grandes flutuações do câmbio impactaram os balanços das empresas – inclusive o do Unibanco – e o setor exportador passou por uma redução significativa do seu fluxo de caixa em moeda local. Mesmo assim, este foi um preço baixo para se resgatar o país da beira do abismo.

O desempenho operacional do Unibanco melhorou substancialmente em 2003. Todas as nossas unidades de negócios registraram um crescimento significativo do resultado antes do imposto de renda. No Varejo, o lucro líquido gerencial de nossas agências aumentou cerca de 36%. Nossas empresas de consumo consolidaram seu processo de reestruturação apresentando um crescimento superior a 280% no lucro. A inadimplência foi controlada rigorosamente. No Atacado, apesar da estagnação dos volumes e da deterioração do cenário de crédito, o desempenho dos negócios também evoluiu positivamente. O Unibanco liderou algumas das mais significativas transações do mercado de capitais no Brasil durante o ano, entre elas a reestruturação das Indústrias Klabin, a venda de várias subsidiárias da Rede Globo e as ofertas de ações da VCP e da Suzano. Enfrentamos desafios na área de crédito ao longo do ano, particularmente em alguns setores-chave. Mas a necessidade de elevar os níveis de provisões foi mais do que compensada pela atuação da equipe do Banco de Atacado, que teve um papel fundamental na reestruturação de vários balanços corporativos, gerando uma receita de serviços substancial e um relacionamento ainda mais sólido com nossos clientes de primeira linha. Em um ambiente adverso, nosso Banco de Atacado demonstrou sua agilidade e audácia, e construiu bases para novas oportunidades de negócios. Mantendo sua notável trajetória, a Unibanco AIG Seguros e Previdência aumentou sua participação de mercado em 2003. Fechamos o ano com uma participação de 7,2% no mercado de seguros, liderando os segmentos de garantia estendida, risco petroquímico, incêndio, responsabilidade civil e previdência corporativa. Em termos consolidados, os prêmios emitidos cresceram 37%. Finalmente, nosso pilar de Gestão de Patrimônios, além de registrar um crescimento de 18,8% nos resultados, incrementou significativamente o volume de ativos sob sua gestão e administração. Esta melhora na performance de todas as áreas de negócio resultou no crescimento de 72,4% do nosso resultado antes de impostos, que saltou de R$ 1.112 milhões para R$ 1.917 milhões. No entanto, conforme detalhado neste relatório, nosso demonstrativo de resultados foi prejudicado por uma despesa com impostos mais alta, conseqüência da alta tributação da receita do hedge de nossa posição comprada em dólares. É essa a razão pela qual, mesmo com o substancial aumento do lucro antes do imposto de renda, nosso lucro líquido teve um aumento de apenas 4,2%, muito aquém de nosso objetivo de crescimento do lucro por ação de 15%.

Em 2003 o Unibanco manteve sua trajetória de crescimento orgânico, mas sem deixar de exercer, ao mesmo tempo, várias oportunidades de aquisição. O pilar de Gestão de Patrimônios adquiriu a carteira de ativos sob gestão do Banco Pictet Modal. A Unibanco AIG Seguros e Previdência comprou as operações de previdência da Cigna e o negócio de seguros da Fiat (Phenix). Para complementar nosso Banco de Varejo, adquirimos a Creditec, companhia de crédito ao consumidor que contribuirá para expandir em 57,6% a rede de distribuição da Fininvest. Com fusões e aquisições de grande impacto tornando-se cada vez mais raras, acredito que parcerias e aquisições de menor porte, estrategicamente focadas, serão importantes fontes de crescimento. Essa estratégia deverá marcar nossa atuação também em 2004. Cada aquisição ou parceria realizada deverá contribuir para o fortalecimento do leque de negócios do Unibanco, aumentando nossa capacidade de aproveitar o ambiente econômico favorável que parece estar se desenhando no país.

O conselho de administração do Unibanco foi reestruturado em 2003, quando, pela primeira vez em 20 anos, foram recrutados conselheiros externos, sem funções executivas.Em maio, Pedro Sampaio Malan foi eleito vice-presidente do conselho, trazendo com ele o respeito e a experiência de mais de três décadas de serviço público, onde estão incluídos oito anos como ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso. Pedro Bodin de Moraes também foi eleito membro do conselho nesse período. Com uma também significativa passagem pelo setor público, trabalhando como diretor financeiro do BNDES e diretor de política monetária do Banco Central do Brasil, Pedro Bodin agrega uma bem sucedida incursão pelo setor privado, ao ter administrado por quase 10 anos um dos principais bancos de investimentos do país. É um privilégio e um grande orgulho liderar um grupo de pessoas tão talentosas e versáteis, e testemunhar a imensa contribuição que um conselho diversificado mas perfeitamente integrado e comprometido com o futuro da instituição pode trazer à nossa companhia.

O ano de 2003 também foi marcado pela saída de Tomaz Zinner do Conselho de Administração. Sua contribuição de 38 anos prestada ao desenvolvimento e ao crescimento do Unibanco, cinco desses anos como presidente executivo e seis como vice-presidente do conselho, permanecerá marcada em nossa memória. Um grande amigo que muito me ensinou e a quem estendo, em nome do conselho e de toda a comunidade Unibanco, meu apreço e gratidão mais profundos pelo seu comprometimento e dedicação a este Grupo.

Olhando adiante, com a economia caminhando para juros mais baixos, maior crescimento e, espera-se, um ambiente “normalizado”, novos desafios deverão surgir para o sistema bancário brasileiro. Conhecendo o nosso país, é de todo prudente escrever “normalizado” entre aspas, já que sabemos quão volátil é o Brasil e quão frágeis ainda são as suas instituições. Mas acredito que, apesar de todos os avanços e recuos que marcaram a nossa história recente, a direção está dada e o país avança. Essa tendência perdurando, como todos nós, brasileiros, esperamos, as instituições financeiras passarão pela última etapa de um processo de transição que se iniciou há 20 anos. De um resultado majoritariamente dependente de receitas advindas de inflação, característica dos anos 80, passando por um período que vai de meados dos anos 90 até hoje de balanços reestruturados baseados em receitas de serviço, baixos volumes de crédito e spreads extremamente altos, para o desafio que se abre de trabalhar com spreads menores e volumes de crédito maiores. Tenho plena confiança de que o Unibanco está totalmente preparado para enfrentar mais esse desafio. Durante os últimos anos, investimos substancialmente na expansão de nossa base de clientes, desenvolvemos uma poderosa rede de distribuição em todo o país e entramos em vários segmentos financeiros promissores, cuidadosamente selecionados. Dada a ampla oferta de produtos a uma base leal e crescente de clientes individuais e corporativos e o posicionamento diferenciado do Unibanco no segmento de crédito ao consumidor, acredito que estamos numa posição privilegiada para nos beneficiarmos de uma retomada da economia brasileira. Naturalmente, como os spreads tendem a diminuir antes de uma expansão prudente e sensata do volume de ativos, as margens poderão ser impactadas. Um preço pequeno, se formos recompensados com uma nação forte, produtiva e com um sólido sistema financeiro detentor de uma eficiente oferta de produtos e serviços. O Unibanco está pronto e ansioso para contribuir para o desenvolvimento desse futuro promissor.

Cordialmente,

Pedro Moreira Salles
Presidente do Conselho de Administração