Num país de grandes flutuações econômicas, o ano de 2002 entra para a história marcado por uma extraordinária volatilidade no mercado financeiro brasileiro. Vimos de tudo um pouco. O início de ano foi de grande otimismo, aparente nas taxas cadentes dos mercados de juros e cambial. Naquele momento, a oferta de capital continuava abundante para o Brasil, apesar das dificuldades crescentes de nosso país vizinho, a Argentina. No plano político, as apostas davam como quase certa a eleição de um candidato da situação à Presidência da República. Decorrido o primeiro trimestre em relativa tranqüilidade, a conjuntura começou a tomar outro rumo: a situação argentina deteriorou-se aceleradamente, gerando graves prejuízos ao sistema financeiro local e ao público investidor. A perplexidade gerada pelas quebras de empresas ícones do capitalismo moderno, como Enron e WorldCom, espalhou o temor de que os balanços das companhias não refletissem a sua realidade patrimonial. Investidores entraram em pânico, derrubando ainda mais os mercados bursáteis pelo mundo afora. A situação eleitoral brasileira também começou a dar sinais inquietantes, com a queda abrupta nas pesquisas da candidata do partido conservador sem a concomitante ascensão do candidato governista. O câmbio iniciou sua rota de depreciação, reflexo da mudança radical das percepções. O seu efeito sobre a inflação, de um lado, e sobre o estoque da dívida pública, de outro, não demorou a se fazer sentir.

Essa confluência infeliz de acontecimentos levou a análises apressadas, e geralmente equivocadas, sobre a sustentabilidade das contas públicas nacionais. O mercado passou a recusar títulos públicos de prazo posterior a 2002, gerando deságios crescentes no crédito soberano. Em face dessa realidade, o Banco Central exigiu, em meados do ano, que os administradores de fundos marcassem a mercado suas carteiras, explicitando assim ao público em geral o grau de desconfiança vigente quanto à solvência do setor público brasileiro. Declarações cada vez mais contundentes dos candidatos à Presidência de postura oposicionista quanto ao manejo da dívida pública pós-eleições adicionaram elevado grau de incerteza a um quadro por si só delicado. A deterioração acelerada das expectativas levou o país, em meados do ano, a uma forte crise de financiamento externo. Ao Banco Central só restava sancionar a expressiva desvalorização da moeda local com uma alta contínua da taxa de juros, assinalando o seu compromisso institucional com a estabilidade de preços e tentando dar algum horizonte de racionalidade aos agentes econômicos. Vale a pena registrar que, em pleno ano de eleição, o governo, através de seu Banco Central, não hesitou em subir a taxa básica de juros em 700 pontos-base.

Nada disso, porém, foi suficiente para acalmar o mercado. Àquela altura, cristalizava-se a percepção de que dificilmente o candidato à Presidência do governo Fernando Henrique Cardoso teria sucesso eleitoral. Assim, as decisões do núcleo econômico do governo, por mais sensatas que fossem, pouco alteravam as expectativas. Os agentes não mais olhavam para os fundamentos da economia brasileira: superávits primários consistentes e crescentes, saldos positivos expressivos na balança comercial, queda acentuada do déficit em conta-corrente, política monetária restritiva para conter uma possível escalada de preços, nada disso atenuava a desconfiança do mercado com o período pós-eleições. A aversão a risco tornou-se tal que as decisões de investimento não respondiam mais às taxas oferecidas. O governo chegou a vender títulos indexados ao dólar mais 40% a.a., e assim mesmo com dificuldade de colocação.

Em agosto já se tornava clara a necessidade do país ir ao Fundo Monetário Internacional, já que o estreitamento das linhas externas, inclusive das de comércio, podia levar o Brasil a uma perigosa crise de liquidez. No calor do debate eleitoral o bom senso prevaleceu, e todos os candidatos à Presidência reuniram-se com o presidente Fernando Henrique Cardoso e a sua equipe econômica para entender e posteriormente apoiar o pacote emergencial. Os principais candidatos de oposição compreenderam então a gravidade do momento e deram declarações públicas inequívocas de respeito aos contratos e de manutenção da austeridade das políticas fiscal e monetária. Apesar de o dólar não reverter a sua tendência de imediato, o clima de pânico que começava a se instalar foi contido. E, antes mesmo do segundo turno das eleições, o real sofreu uma modesta apreciação.

Em 27 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva obtém uma consagradora vitória nas urnas. Na quarta tentativa, o ex-metalúrgico e ex-líder sindical assume o comando do maior país da América Latina, a 10a economia do mundo, com seus 180 milhões de habitantes. Um país continental, homogêneo na sua língua, diversificado nas suas raças, injusto na sua distribuição de renda, moderno no seu parque industrial e na sua infra-estrutura, pacífico nas suas relações, altamente urbanizado mas violento nas suas cidades. Um país extremamente complexo, organizado federativamente, que optou a partir da segunda metade do século XX por se inserir no mundo globalizado, ciente das vantagens e dos percalços dessa escolha. Esse caminho, sempre um pouco sinuoso, precisa continuar sendo trilhado, e as declarações – e indicações ministeriais – do novo presidente vão nesse sentido.

Nesse ambiente de alta volatilidade, o Unibanco obteve significativas vitórias, mas também amargou alguns reveses. De um lado, a base de clientes de varejo continuou expandindo-se aceleradamente, e chegamos ao fim do ano com o programa ContAtiva praticamente cumprido nove meses antes do prazo. Desde o seu lançamento, em setembro de 2000, o programa representou a abertura de 1,8 milhão de contas, um crescimento orgânico notável que agora se estende ao projeto ContAtiva 2. Também no mundo do varejo, nossas atividades de crédito ao consumidor tiveram um bom ano, consolidando a reestruturação da Fininvest, que traz resultados crescentes para o grupo, e obtendo números muito positivos nas nossas joint-ventures InvestCred e LuizaCred. E, através de nossas várias marcas, continuamos liderando a atividade de cartões de crédito na América Latina tanto em número de cartões emitidos quanto em faturamento.

No Atacado, estivemos envolvidos em quase todas as operações relevantes de emissão de dívida, reestruturação de passivos e operações estruturadas, consolidando nossa presença no segmento corporativo como um dos principais players, senão o principal, do setor financeiro. Fechamos o ano com o primeiro lugar em originação e distribuição de operações de renda fixa em mercados de capitais, com fatias de mercado de 19% e 20% respectivamente, o primeiro lugar em número de projetos em assessoramento e estruturação de operações de project finance e o primeiro lugar entre os bancos brasileiros em número de transações de fusão e aquisição. Aumentamos ainda em 33% nosso volume de operações de serviços de cash management para empresas e mantivemos a liderança, entre os bancos privados, na atividade de repasses do BNDES.

Nossa atividade de seguros e previdência obteve muito bom desempenho no ano, alcançando resultados expressivos e uma taxa de retorno sobre o patrimônio líquido de 20,3%. A Unibanco AIG é hoje a primeira seguradora do mercado nos ramos de incêndio, garantia estendida, transportes internacionais, riscos petroquímicos, entre outros. Na previdência, tivemos o significativo crescimento de 27% no volume financeiro de contratações. A Unibanco AIG Seguros e Previdência vem, ano após ano, apresentando crescimento notável de market share sem jamais desviar o foco da rentabilidade. Ao final de 2002, a companhia atingiu a quarta posição por prêmios emitidos no mercado – foi a sétima três anos atrás -, a segunda posição em resultado e a primeira em qualidade de serviços.

No sentido de melhorar o relacionamento com clientes e buscar sinergias, foi implementada, em março de 2002, a área de Gestão de Patrimônios, conceito conhecido no exterior como Wealth Management. O novo segmento engloba as atividades da UAM e do Private Bank, que sofreram diretamente os efeitos da volatilidade exacerbada do mercado, principalmente a partir de junho de 2002. A nossa UAM viu migrar cerca de 10% de seus fundos para outras modalidades de aplicação, como CDB e poupança, a quase totalidade no próprio Unibanco. Com muito esforço e competência, a equipe da companhia procurou compensar essas perdas abrindo novos canais de distribuição, penetrando melhor nos canais e na base de clientes existente e exibindo uma performance superior de gestão. Em private banking soubemos orientar nossos clientes em meio à turbulência, protegendo seus patrimônios e oferecendo-lhes uma gama de produtos e serviços de alta qualidade. Chegamos a dezembro de 2002 com um volume captado 40,5% superior ao do final de 2001.

O Unibanco mostrou disciplina no tocante à sua estrutura de custos ao longo de 2002. Apesar do recrudescimento dos índices de inflação, que esperamos temporário, as despesas do banco múltiplo cresceram apenas 4,7% e as do conglomerado como um todo 7,1%. O volume de despesas totais cobertas pelo fluxo de receitas de tarifas e serviços evoluiu de 55,1% para 61,7%.

Assim, em cada um dos nossos negócios, obtivemos importantes avanços em 2002. Nossas receitas cresceram de forma sustentada, sobretudo aquelas cuja natureza é a cobrança de fees e serviços. Nossas despesas permaneceram contidas mesmo em ambiente de significativa pressão inflacionária. A performance das carteiras de crédito evoluiu positivamente, sobretudo ao longo do segundo semestre nas atividades de varejo. Nossa base de clientes continuou crescendo de forma acelerada. Em resumo, tivemos um ano em que os fundamentos continuaram apontando na direção de um franchise cada vez mais eficiente, robusto e competitivo.

Mas nem tudo evoluiu a contento. A boa performance não se traduziu na redução do índice de eficiência, que permaneceu estável, próximo a 59%. O cenário de crédito nos induziu a buscar, de forma prudencial, provisionamentos adicionais nas carteiras, e nossa posição de títulos públicos em tesouraria sofreu expressiva perda de valor em ambiente de pouquíssima liquidez. Reconhecemos o impacto tanto em resultados como diretamente no patrimônio líquido. Além disso, a crise cambial e de liquidez que se intensificou nos últimos meses do ano gerou prejuízos não-recorrentes referentes à proteção do nosso capital no exterior e às carteiras cambiais da tesouraria.

Ao final, não conseguimos atingir o objetivo de fazer crescer o nosso lucro por ação em 15% ao ano. O resultado, de R$ 1.010 milhões, representa um retorno sobre o patrimônio líquido médio de 16% e um crescimento da ordem de 5% no lucro por ação. Esse, portanto, não foi um ano satisfatório.

Olhando à frente, acreditamos que em 2003 o ambiente político e econômico será menos turbulento, o que poderá levar a uma gradual redução das percepções do risco Brasil e, assim sendo, dos níveis de provisionamento dos títulos públicos, com reflexos positivos na nossa demonstração de resultados e diretamente no patrimônio. Para além desses efeitos contábeis de curto prazo, quero reafirmar minha convicção de que os fortes investimentos feitos em expansão de negócios, em talentos humanos e em tecnologia hão de transparecer, ao longo do próximo exercício, em resultados crescentes e consistentes para os nossos acionistas.

Cordialmente,




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